quarta-feira, 23 de julho de 2014

Quando se desligava o motor da estável chata de chapa à deriva, acertava-se o passo com a corrente constante do Rio, só assim o tempo parecia parar, só assim também o silêncio parecia poder ouvir-se, flutuava-mos à velocidade das ilhas de vegetação que se desprendiam das margens, os crocodilos mantinham-se assim serenos os hipopótamos também, parecia que só o motor desligado podia fazer sincronizar a nossa estranha presença com a vida do Zambeze. Perguntei a quem de pé pescava numa instável piroga que se volta até com a esteira de uma pequena embarcação como a nossa, se não tinham medo de pescar ali com os crocodilos, esperava uma resposta segura e confiante de quem com experiência e desenvoltura dominava aquele meio, mas a resposta do pescador desarmou-me _" Sim tenho, mas se não pescar quando voltar a minha família não tem de comer"

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Mais à frente, guiados pela corrente passamos novamente por baixo da ponte Armando Emílio Guebuza, algumas milhas depois chegamos a uma bifurcação. Um braço do Zambeze segue pela esquerda, acredita-se que fosse por esse sentido que os exploradores portugueses tenham passado e fosse também esse o rumo do Rio dos Bons sinais que os levaria até Quelimane, ou talvez não! É afinal bem provável, que em 1885 quando a comitiva de Capelo e Ivens por aqui passaram que o Rio dos Bons Sinais já não fosse um braço do Zambeze tal como o fora cerca de 400 anos antes quando Vasco da Gama na sua foz assim o baptizou pelo facto de aí ter tido finalmente informações precisas de que estava certo no rumo que tomara na descoberta do caminho marítimo para a India. Afinal cerca de 130 anos depois o Zambeze nunca fora a auto estrada entre o Índico e o Atlântico que Capelo e Ivens haviam sonhado para escoar a matéria prima que alimentaria os fornos da revolução industrial que de facto mudou o mundo, mas o comboio e o barco a vapor cederam lugar ao automóvel e ao avião, dobrar o Cabo da Boa Esperança já não foi uma imposição, percorrer do Cairo ao Cabo na linha de caminho de ferro Inglesa não chegou a passar de um desenho e a nossa Linha de Benguela iniciada em 1899 (Angola 1899) nunca se chegou a cruzar com ela nem a unir-se com a Linha da Beira (Moçambique 1899. Nas margens do Zambeze com arpões, canas, redes e pirogas escavadas de troncos de árvores as gentes do Zambeze mantêm a forma de vida e as artes de pesca tal como no tempo da última epopeia dos Portugueses.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Primeiro rumamos a montante, o pequeno motor de poucos cavalos já cansados mal conseguia vencer a corrente, no entanto, olhando as ilhas da vegetação flutuante do Zambeze que se deslocavam para jusante, o pequeno bote de chapa parecia planar. Passamos a meu ver, perto demais de um hipopótamo fêmea que vigiava os filhotes, nunca me passou pela cabeça temer hipopótamos até ouvir algumas histórias nas vésperas de partida para África. Mais à frente um banco de areia fez o motor parar. A corrente trouxe a embarcação de volta, as orelhas da fêmea estavam outra vez cada vez mais próximas. Nos peluches do IKEA ou mesmo nos documentários da Nacional Geographic as feições dos hipos sempre me pareceram "fofas" mas não aqui! Nesta altura, calculava eu traçando coordenadas com referências na vegetação das margens, devia-mos estar com o casco do bote de motor calado mesmo por cima do dorso da fêmea! Olhei a cara do timoneiro rodesiano experiente que também não me confortou. A corrente que tão depressa nos colocou sobre apuros depressa igualmente nos afastou deles. Pouco depois o motor acordou e seguimos agora ajudados pela corrente em direcção da foz.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Foi o Dono do resort onde estivemos hospedados que acabou por quebrar o impasse. Não podíamos esperar mais tempo, o homem do resort foi também o homem do leme desenterrou uma velha chata de chapa das arrecadações apertou a bateria do land cruiser à embarcação esconderam-se os tripés e a câmera de filmar debaixo de uns oleados e finalmente seguimos pelo Zambeze acima.

terça-feira, 22 de abril de 2014

As inesperadas esperas geradas pela burocracia levaram a inesperados encontros e também a inesperadas histórias. O sr. Victor trabalhava no batelão que fazia a travessia dos carros e das mercadorias antes da ponte de Caia ser feita. Depois dela o batelão encostou numa das margens do Zambeze é lá que o Sr.Vitor hoje vive. Sem trabalho tornou-se pescador, conta que de noite adormece com os crocodilos a baterem no casco, sabia de cor quase todas as cidades Portuguesas, recordou com visível saudade um patrão de Coimbra que teve durante o tempo colonial, a ele lhe deve saber ler e escrever, também houve quem tenha tido essa sorte.

domingo, 13 de abril de 2014

Uma das heranças mais visíveis que os portugueses ali deixaram foi o empatar da burocracia. Papel qual papel? afinal já ninguém sabia que papel precisava-mos. Havia sempre alguém que devia estar e teria o tal papel, mas que, afinal naquele dia não estava, no entanto teria-mos de esperar por aquele papel ou pela tal pessoa que assinaria o tal papel. Mas qual papel? O da autorização do governo para pôr o barco na água e poder filmar. Mas afinal já trazia-mos da embaixada a autorização com selo branco, mas não servia, mas sim... mas não... certo foi que o tal papel nunca chegou a aparecer no instituto das calamidades entidade que supostamente nos conduziria Zambeze acima.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Tentamos a outra margem, ainda pusemos o bote na água e rumamos a montante umas boas centenas de metros até que um telemóvel tocou e não autorizou percorrer nem mais um metro de rio a cima. Desembarcamos numa doca improvisada e esperamos... 3 dias!

segunda-feira, 31 de março de 2014

Não tinham ainda desengatado o barco do reboque puxado pelo Land Cruiser quando um telemóvel tocou e do outro lado alguma autoridade não autorizou o embarque naquela pequena rampa de acesso ao Zambeze também usada para as mulheres lavarem a roupa e as crianças tomarem banho.

terça-feira, 25 de março de 2014

Chegar ao Zambeze e navegar nele foi um dos grandes objectivos por nós traçados para Moçambique, afinal esse tinha sido o itinerário principal da viagem de Capelo e Ivens que em 1884 acreditaram que o Zambeze poderia vir a ser como uma auto-estrada de escoamento do comercio entre o Índico e o Atlântico. Tudo parecia simples depois de dispormos do que aparentemente seria mais difícil; um land cruiser e um barco com o qual procurámos embarcar no pequeno cais em Caia junto à enorme ponte rodoviária recentemente construída Armando Guebuza que une as províncias de Sofala e Zambézia, mas nem tudo correu como esperado.

terça-feira, 18 de março de 2014

A escala gigantesca que alguns embondeiros atinge cria relações de proporção que não parecem deste planeta, estas árvores são autênticos templos naturais, talvez também por isso, debaixo das suas copas se celebrem cerimónias religiosas. Neste templo sem cadeiras cada um leva a sua.

sábado, 1 de março de 2014

Se houve coisa que nesta viagem ficou bem acima das expectativas iniciais, foi a logística das dormidas. Partimos mentalizados que numa noite ou noutra, dadas as distâncias,a falta de lugares para pernoitar e sem tendas, seria natural que o carro pudesse vir a ser o ultimo recurso, embora sem espaço estaria-mos eventualmente mais protegidos até dos bichos, sabe-se lá que ainda andem por ali. Certo é que cobertura, quartos confortáveis, belos alpendres, grandes vistas ao acordar, ar condicionado e pequeno almoço incluído nunca faltou.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Tudo passa na estrada e tu se passa na estrada! O campo e a cidade em Moçambique estão ainda perfeitamente demarcados, mas ao longo da estrada não se anda muito sem que se aviste gente, mesmo ao parar o carro em lugar nenhum aparece sempre alguém. A estrada é uma oportunidade para o pequeno comércio, há jerricans laranja para todos os preços dependendo tanto do transporte como da distancia à bomba mais próxima, que certamente terá já esgotado a gasolina para que o comércio paralelo se possa fazer.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sim este sou eu! Foi o melhor que o Eliseu (segundo a contar da esquerda no desenho anterior) conseguiu depois de lhe ter passado o meu caderno com a caneta de pincel e ficar bem quietinho a posar para ele. Uma simples paragem para matar a sede e comer uma conserva numa cantina de beira da estrada valeu inesperadamente um dos momentos mais expontâneos e interessantes do documentário de Angola à Contra Costa.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O desenho anterior fez juntar uma pequena multidão de crianças curiosas; desenhar tem o efeito magnético de atrair pessoas e de as juntar no fascínio e na surpresa de ver quem descobre primeiro as formas que de uma maneira quase mágica se vão revelando. Queriam ficar todas no boneco, acotovelavam-se para caberem na dupla página do pequeno formato do caderno, no fim fui eu quem pousou para uma delas.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Os quilómetros são muitos e o tempo pouco, por isso as paragens contam-se ao minuto, mas essas que não estão no guião, imprevistas, sem expectativas prévias, que acontecem em lugar nenhum de beira de estrada como esta, são as que se gravam na memória com maior profundidade.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

De quem seria esta casa? "É uma casa portuguesa com certeza, é com certeza uma casa portuguesa", não cheguei humildemente a bater à porta porque teria também de bater à porta a tantas outras inabitadas, abandonadas, degradadas, desventradas mas também conservadas como esta, ainda dos anos 40 num estilo "português suave", com pequenos "tiques" modernistas. Quem viveu ali? não sei precisar a rua de Quelimane mas se alguém através deste blog souber que o diga e conte aqui a sua história. Nunca vivi em África mas enquanto esta casa se ia fazendo no papel fui também fazendo a minha história: o pai trabalhava nos caminhos de ferro era funcionário público ia almoçar a casa: a mãe, de 3 filhos, doméstica, da janela da sala chamava os miúdos que brincavam na rua em frente quando o almoço estava na mesa: a empregada abria sempre à mesma hora o portão que lhe dava pela cintura para que o patrão pudesse pôr o carro debaixo do alpendre do quintal: o patrão tinha um Datsun creme com o qual regressava ao trabalho após a sesta do almoço. Agora como antes, tenho a certeza que se humildemente batesse à porta, sentava-me à mesa com quem quer que ali viva ou tivesse vivido.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Há bicicletas por todo o lado em Moçambique, vêm do oriente especialmente da Índia onde este modelo "pasteleira" idêntico às conhecidas em Portugal, fabricadas na já extinta indústria de Agueda, copia prefeita do design e dos materiais das famosas bicicletas inglesas "Raleigh" difundidas especialmente por todo império britânico desde o início do séc.XX. Curiosamente, em Angola praticamente não se viam bicicletas, talvez o terreno minado tenha afastado uma geração dos hábitos do pedal, as poucas existentes são agora essencialmente para fins recreativos ou utilizadas para pequenos trajectos restritos ao meio urbano e os modelos são idênticos aos que se encontram nas grandes superfícies sem "pedigree" nem interesse documental. Este é um modelo marca Hercules de roda 28 toda em ferro indestrutível de fabrico Inglês, marca que, apenas hoje sobrevive e exporta a partir da India que fica logo ali do lado de lá do Índico.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Enquanto o câmera Plácido e o realizador Álvaro afinavam os planos, tentava à viva força aproveitar as poucas sobras de tempo para desenhar, sob pena de chegar a Portugal com mais metros de "takes" repetidos do que páginas de caderno com desenhos apressados.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Chego a Quelimane no dia dos meus anos, comemore-se ou não é sempre um dia de alguma introspecção, mais ainda se torna quando se está longe da família e dos amigos mais próximos. Na frente da Catedral Velha, abandonada ainda durante o tempo colonial, corre conforme as marés ora para jusante ora para montante o Rio Quá-qua ou Rio dos "Bons Sinais" como lhe chamou Vasco da Gama, porque parece que foi na sua foz que o descobridor cerca de 400 anos antes de Capelo e Ivens terem ali chegado mas dessa vez por terra, tenha recebido informações sobre o piloto que o poderia guiar até à India. A maresia doce do Índico que o rio transporta durante a enchente chega a Quelimane bem diferente da tão nossa conhecida do atlântico , assim como, também a luz a humidade e as próprias gentes.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Depois da enorme volta por Angola, que na escala do mapa afinal se completa com meia dúzia de polegadas, à chegada a Maputo durante a longa espera do vôo para Quelimane desenhei o mapa de Moçambique. Nada como desenhar para decorar o recorte geográfico, ter a noção real do caminho a percorrer e inteirarmo-nos da verdadeira escala de um país. Logo cedo me apercebi que também ali tal era tão vasto o território, que a longa viagem que se adivinhava pelas margens do Zambeze entre o Zumbo e Quelimane no mapa pouca expressão tinha.

domingo, 24 de novembro de 2013

A grande batota da viagem concretiza-se! As regiões onde hoje fica a Zâmbia e o Zimbabwe que no passado tanto trabalho deram aos portugueses a cartografar, agora por motivos logísticos, iam ser vistos do ar bem longe de todas as tormentas descritas por Capelo e Ivens, numa altura em que não havia sequer ainda relatos ou documentos cartográficos sobre estes países. Lá do ar bem longe dos crocodilos, das investidas dos leões ou dos elefantes, sem as deserções da comitiva, sem malária nem doença do sono sentámo-nos a bordo confortavelmente com comida quente e bebidas frescas servidas por simpáticas hospedeiras, em algumas horas voamos pela serenidade do ar até Moçambique todo o vasto território que há pouco menos de 130 anos a comitiva dos exploradores Portugueses demorou mais de um ano e meio a percorrer a pé.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

De volta ao Hotel Pôr do Sol fechava-se aqui a ronda por Angola. Tinha-se cumprido a 1ª parte de uma viagem longa, mas só uma pequena área do enorme mapa cor de rosa. Desembaraçaram-se algumas teias de ideias, medos e preconceitos que se trazem da Europa sobre Angola. Luanda parecia agora bem mais amigável, foi com a proximidade da hora de embarque que comecei a gostar um pouco daquela cidade, o caos parece tornar-se agora belo. É dia 1º de Maio, dia de descanso do trabalhador, todos cumprem rigorosamente até os chineses hospedados no hotel. Ultima passagem pela ilha antes da ultima chamada para o embarque, o azul dos candongueiros torna-se ainda mais vivo com a luz do final da tarde junto à praia da ponta da ilha, alguns param já em cima da areia, é feriado trazem musica e cerveja jogam futebol metem golos e dão mergulhos. Talvez o lado mais expontâneo da vida se viva agora mais intensamente nas cidades que emergem do caos.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A ronda por Angola estava preste a concluir-se, o guia que levamos connosco da televisão angolana revelou-se imprescindível para que toda a comunicação e acessos aos lugares pudesse ter acontecido. Para além de um bom "pendura" mostrou ser também como um excelente piloto conhecedor de todas as manhas que a condução em África implica. Na verdade as estradas possíveis de se percorrer em Angola poucas vezes coincidiram com o percurso que a comitiva conduzida por Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens fizeram há cerca de 130 anos, que tal como nós partiram de Moçamedes, subiram a Serra da Leba, percorreram todo o planalto da Huila mas depois cruzaram o limite do território angolano que só mais tarde seria traçado a régua e esquadro bem junto à fronteira daquilo onde hoje fica o Congo Belga. Zona de acessos bem mais difíceis e perigosos e também bem mais a norte dos lugares por onde passamos. A produção de documentários faz-se assim mesmo, as dificuldades logísticas assim também o determinam, os relatos de Capelo e Ivens sobre a proximidade da bacia hidrográfica do Zaire com a bacia hidrográfica do Zambeze, afinal podia bem ser filmada ali mesmo numa pequena barragem nas proximidades do Huambo.

sábado, 16 de novembro de 2013

O dia de viagem foi longo... muito longo. À saída do Lubango o sol ainda não tinha nascido, já que não se aconselha viajar de noite, foi com uma enorme margem de manobra que partimos para poder encaixar no tempo de luz de um dia todos os possíveis azares tão próprios das viagens em África. Na Europa os mesmos cerca de 300 Kilómetros que teria-mos pela frente não se questionariam, bastaria quais quer 3 horas para se chegar em segurança de um destino ao outro, mas em Angola ainda não. Uma ponte caída obriga a que se faça um desvio pelo caminho mais longo, existem poucas alternativas viárias, de repente uma placa mal pintada, improvisada que assinale "desvio" pode significar mais um dia de viagem ou de paragem. Até ao Huambo percebia-se que a via que tomamos foi em tempos coloniais um estrada importante pela estrutura, planificação e edificação das vilas por onde passámos todas elas com fortes vestígios do efeito devastador que a guerra deixou nesta zona. Os dias em África são pequenos, a luz rende pouco, chegámos ao Huambo já bem de noite. Depois de assegurada a estadia num hotel que só este daria um enorme compêndio da exaltação do mau gosto, cansados e esfomeados, já fora da hora do jantar, numa esplanada próxima da rotunda do governo, ainda nos serviram um caldo verde, uma bifana e uma superbook. Ao lado das mesas umas scooters estacionadas, do outro lado da rua vivendas de uma traça que nos é muito familiar, não fosse o calor abafado da noite, estaria-mos certamente num qualquer bairro habitacional de Lisboa.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Novamente um rápido regresso de Africa directamente para a Rua do Cardal ali nas traseiras das grandes marcas da Av. da Liberdade onde se escondem as ruas de uma aldeia que também é Lisboa. O Atelier Cardal promove mais um passeio orientado por mim de diário gráfico na mão, "Entre as casas e as Árvores" num percurso que liga a Praça da Alegria ao Príncipe Real carregado de História e Estórias e também de Casas e Árvores fantásticas. É já no próximo Domingo dia 27. O Encontro é às 10h no Atelier Cardal com direito a cafezinho, o programa estende-se ao longo de domingo (Já não chove ver aqui) até às 18h com uma hora de intervalo para o almoço. Até lá...

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

No pára - arranca confortável, sentado no banco traseiro do pequeno Chevrolet esboço as primeiras linhas deste desenho que sabia não poder terminar ali. O fim da estação das chuvas ainda pregava partidas ao trânsito, mas fazia alegria dos miúdos que perante a enxurrada rápidamente improvisavam uma enorme piscina aquecida sobre o asfalto ainda quente. Talvez só a voltem a ter na próxima temporada das chuvas.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Antes de mais uma vez e de forma tão espaçada retomar África gostava de anunciar a ultima chamada para as inscrições no curso de ilustração do CIEBA Na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. O curso terá 128 horas de Outubro a Fevereiro, às 2ªs e 5ªs em horário pós laboral das 18h30 às 22h30. O programa compreende vários módulos orientados por mim e pelo ilustre ilustrador Bernardo Carvalho. Inscrever aqui: http://www.fba.ul.pt/curso-de-ilustracao/

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Custa a querer que tenha sido na sombra desta acácia que em 1884 se tenha rezado a 1ª Missa na fundação de Sá da Bandeira. Curiosamente foi nesse ano também que Capelo e Ivens por aqui passaram. Hoje a acácia continua a fazer a sombra aos fieis que frequentam a capela construida no tempo colonial como marco desse acontecimento. Ao lado existe um cemitério com essa mesma data de formação e ainda uma escola bem mais recente. Uma grande animação de crianças chega e trazem de casa às costas as cadeiras de plástico onde no interior da escola se vão sentar. Assim sabem que só cuidando bem delas é que se podem sentar.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

As cantinas são os postos de venda que vamos encontrando ao longo das estradas, não há nada que se coma com relativa segurança que não seja já embalado ou em conserva. São também postos de paragem para arrefecer os motores mas sobretudo postos de paragem no tempo. Nada nestes lugares parece ter sofrido alguma alteração fosse no tempo colonial, fosse durante a guerra ou agora depois dela. Mas essa, para além das marcas físicas cravadas nas paredes desbotadas deixou também o hábito controlador de que cada um que por ali passe, poderá ser também um precioso informador. Enquanto se reforçava o remendo que se improvisou na reparação do depósito de gasolina alguém durante muito tempo olhou desconfiado para o que estava a fazer. No fim, para tornar mais amigável o olhar tenso do controlador, mostrei que apenas fazia um desenho, dei-lhe o caderno para a mão, mas os seus olhos voaram pelas páginas desenhadas e apenas se fixaram demoradamente na ultima onde escrevo os nomes e as moradas dos lugares para onde vou.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

No regresso do Lubango, agora com Huambo como destino algumas surpresas nos esperavam. Tinha sido um improbabilidade imensa ter chegado com o pequeno Chevrolet inteiro ao Namibe, parte da viagem de regresso seria pela mesma picada. Há segunda seria sorte a mais. Um camião que tentava fazer uma manobra de inversão de marcha trancou a estrada impedindo completamente a passagem dos carros que se iam amontoando à espera que alguém resolvesse o assunto. Esse contratempo foi a nossa salvação, quando parámos vimos que uma pedra que ainda há pouco sentado no banco de trás, havia sentido rolar de baixo dos meus pés, tinha furado o depósito de gasolina. O desenho não foi obviamente feito nestes momentos de aflição, nestas alturas todos dão o seu palpite mais ou menos construtivo mas um desenho nesse momento certamente não cairia bem. Também dei os palpites da ordem ainda mastiguei uma pastilha elástica para colar debaixo do depósito mas que a gasolina dissolveu bem mais depressa do que eu apressadamente mastigava a segunda pastilha. Valeu-nos o Plácido o nosso camera men MacGyver que falou menos e agiu mais, inventou um fabuloso engenho em que primeiro cravou uma agulha e um alfinete de dama no pequeno buraco do depósito ao que juntou alguns materiais de higiene pessoal e primeiros socorros que tinha-mos à mão e conseguiu remendar o problema. Não tivesse o camião barrado o caminho ficaria-mos sem gasolina algures num não lugar como tantos que há em África. Nessa noite já chegamos tarde para jantar no Huambo, o remendo que seria um improviso para remediar alguns quilómetros tinha se revelado altamente fiável de tal modo que rolamos mais de 1200 quilómetros até chegar novamente a Luanda, onde com a maior cara de pau entregamos o carro ainda com o alfinete de dama cravado no depósito.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Sá da Bandeira foi no tempo colonial a capital de uma região com muitas atracções turísticas. Hoje vêem-se ainda na cidade do Lubango todos os vestígios da veia mais cosmopolita da cidade, agora os tons pastel do fim do art deco construído durante a década de sessenta, desmaiados já desde então, estão hoje sem qualquer brilho no pigmento, mas é esse também o seu novo encanto. Como qualquer outra cidade turística da metrópole ali se vêem igualmente tabuletas de informação turística, com ilustrações ingénuas das atracções que se podem visitar nos arredores, assim como o grande centro poli desportivo onde à sua volta se disputavam as mais famosas corridas de automóveis de Angola e o ex libris cultural o ciné-teatro Arco-Íris, palco de todas as festas da sociedade pré descolonização. Mesmo nunca tendo vivido ali nesses tempos, era inevitável olhar estes lugares com alguma nostalgia.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A Sé catedral do Lubango mantêm-se com o peso e a imponência das obras feitas com essa pretensão durante o estado novo, a guerra passou por ali de raspão, sentimos ainda que a antiga cidade de Sá da Bandeira é um lugar aprazível, o clima temperado e embora bastante usada ainda assim a cidade está preservada.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Serra da Leba

Os cerca de 200 km que separam o Namibe do Lubango são feitos pela nacional 280, uma estrada agora de bom asfalto que inicialmente atravessa superfícies arenosas quase desérticas à cota do mar, até se aproximar da Serra da Leba onde pela sua influencia tudo se vai tornando mais verdejante e fresco. Aí iniciamos um dos percursos mais curtos, mas mais contrastantes e vertiginosos de todos os que fizemos em Angola. A Serra da Leba constitui um enorme degrau geográfico que divide aquela zona de África da influencia atlântica e da influencia continental. Em pouco mais de 20 Km passamos quase do nível do mar até mais de 2000 metros de altitude. Nas curvas que serpenteiam a subida vamos sentindo as mudanças climáticas, passamos pelas nuvens, pelas sombras frias, por cascatas cobertas de musgo, assim como pelas escarpas expostas ao calor tórrido, também por trovoadas e aguaceiros que na curva seguinte se dissipam na evaporação do asfalto ainda quente. Todo o cenário é já um filme, mas não havia espaço para parar e filmar. Saí do carro e subi alguma parte a pé entalado entre o esmagamento do rodado dos camiões que desciam a chiar dos travões e a vertigem das escarpas separadas pelos rails de protecção que pareciam não ter espaço na beira onde se agarrar. Numa curva uns quilómetros mais acima havia de estar o Câmera-men que com a lente me ia seguindo à distancia.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Rio Muninho, Angola

Entre Namibe e Lubango procuramos nas margens do Rio Muninho a correspondência possível às descrições dos relatos que Cabelo e Ivens tinham feito do mesmo lugar ou de um lugar próximo há 127 anos atrás. O carro ficou parado na beira da estrada e não muito longe dali corria este rio de água limpa e fresca, onde fiz o desenho que ia sendo interrompido entre as repetições dos takes e os ajustes do plano. O sol estava a pique o calor era abrasador, mas banhos só mesmo o dos salpicos, nestes lugares por mais bela que seja a paisagem os banhos nunca são tranquilos.

domingo, 19 de maio de 2013

Turmina e Carlota foram as primeiras a chegar de um ajuntamento que se formou mal a dança terminou. Ali como em toda a parte o desenho têm esta propriedade magnética de juntar pessoas gerar expectativas e aguçar a curiosidade, todos quiseram também o seu retrato, mas a produção salvou-me a tempo daquele congestionamento, tinha rapidamente de preparar o próxima acção e ensaiar o que estava escrito no guião.

sábado, 11 de maio de 2013

O câmera men entrou pela dança a dentro e os planos ora se aproximavam ora se afastavam, colavam-se à pele e às vestes seguindo o ritmo frenético dos batuques. Tentei ir atrás com o meu caderninho e a caneta pincel obviamente bem mais lenta que o filme.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Não sendo o lugar daquela tribo por enquanto um destino turístico, ainda assim depois de devidamente acordado com o soba daquela aldeia alguma parte dela pousou para a fotografia, para o filme e também para o desenho. Vestiram-se com os panos tradicionais que afinal também já só servem para receber visitas com todos os acessórios de caça, defesa e ornamento que nós europeus imaginamos que as tribos não possam prescindir, o que não nos passava pela cabeça era de ver à cintura o clássico Nokia 33-10 "o land cruiser dos telemóveis". Também tive um!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

No dia que deixamos o Namibe em direcção ao Lubango fizemos uma visita a uma tribo que entre os "gadgets" de caça manufacturados tinham também telemóveis! Não era habitual a presença de não africanos por ali, havia crianças que nunca tinham visto um homem branco e que fugiam com o pânico de quem foge de um leão.

sábado, 30 de março de 2013

Do Namibe não se sai para muitos lados, ou se volta para trás de regresso ao Lubango, ou se segue numa picada junto ao litoral na direcção de Lucira, ou se vai pelo deserto numa estrada acabada de asfaltar na direcção de Tombwa, antigo Porto Alexandre. Foi essa ultima a nossa opção, para se poder filmar segundo a ordem do guião no ambiente desértico que correspondesse às descrições de Capelo e Ivens. Outras descrições sobre esta zona de Angola falavam da existência de cobras e escorpiões do deserto do Namibe mas também de uma planta que sempre ouvi falar e que pelo facto de apenas existir ali e em alguns lugares na Namíbia, constitui um autêntico símbolo nacional. Curioso é que, também graças aos campos minados deixados pela guerra esta planta parece poder preservar-se melhor ali do que no país vizinho! De papel na mão enquanto decorava o guião, a medo ia levantando uma pedra após a outra na mira de encontrar um escorpião do deserto, neste deambular deparei com a primeira Welwitschia Mirabilis, depois outra, depois outra, e outra ainda maior! Olhei em redor e vi que afinal havia imensas até se perderem na linha do horizonte. Estas plantas crescem muito devagar algumas delas podiam ter perto de 1000 anos, grande parte possivelmente já lá estavam quando em 1884 Capelo e Ivens por ali passaram, 25 anos depois do explorador botãnico Friedrich Welwitsch a ter descoberto numa viagem de exploração botânica a Angola subsidiada pelo estado Português. A Equipa de filmagem desconhecia a importância deste "monumento" vegetal, não fossem as minhas advertências e o nosso 4X4 por pouco passava-lhes por cima. Não foi fácil convencer a produção para que na madrugada seguinte, mesmo antes do sol nascer, à hora em que as cobras saem para caçar, aquela planta mesmo não fazendo parte do guião, teria de merecer um "take".

quarta-feira, 13 de março de 2013

Os planos de rodagem para o segundo dia no Namibe saíram furados, alguns quilómetros depois da saída da cidade uma enorme fila de camiões deixava antever que alguma coisa se passaria para que o transito não fluísse na saída principal que faz a ligação com a estrada para o Lubango. Nesse dia tinha-mos marcado um encontro com o Soba de uma aldeia próxima, mas em África é mesmo assim, lidar com o imprevisto é uma lição que não se aprende logo. Na noite de chegada aquela cidade tinha uma ponte caído, agora na saída foi um camião cisterna que se virou. Se viesse uma grua de Luanda poderia demorar uma semana a chegar, seria mais rápido abrir uma picada que fizesse mais um atalho, mas isso, por mais rápido que fosse seria sempre demasiado lento para o ritmo de rodagem de um documentário europeu.